37.426 Esse é o número de voluntários cadastrados no Dia V 2010.
Participe também!

Textos sobre o Dia V

O texto a seguir é um relato da engenheira ambiental Daiane Santana. Ela conta um pouco da sua experiência como voluntária em projeto de preservação ambiental no Tocantins. Daiane é formada pela Universidade Federal do Tocantins e é autora do blog Vivo Verde, que trata de todos os assuntos relacionados ao meio ambiente.

Minha experiência voluntária na eclosão dos ovos de tartaruga no Canguçu/TO

Era meado de final de ano de 2004 quando me inscrevi no projeto quelônios que havia na Universidade Federal do Tocantins, no qual eu cursava o terceiro período do curso de Engenharia Ambiental, ainda com aquela ânsia de redescobrir o mundo e com certeza procurar ajudar o próximo, mesmo que fosse um animal sem defesa alguma. A esperança que eu e alguns amigos tínhamos, era estagiar naquele núcleo. Não deu, mas o convite para se embrenhar na vegetação pura das margens da Ilha do Bananal – este sim – veio com grande alegria.

Saímos em uma tarde ensolarada. O caminho até o Centro de Pesquisa Canguçu (CPC) era longo. Localizado no município de Pium, sudoeste do Estado do Tocantins, a 220 km de Palmas a capital, entre duas importantes Unidades de Conservação: o Parque Nacional do Araguaia e o Parque Estadual do Cantão. O CPC desenvolve vários projetos, dentre eles o “Seqüestro de Carbono”, primeiro projeto a ser desenvolvido, o qual foi financiado pela instituição britânica AES Barry Foundation e que tem por objetivo geral reduzir o índice de desmatamento e reflorestar áreas degradadas, avaliando a quantidade de carbono retida em diversos tipos de vegetação.

quelonios1

Ao chegarmos ao local, tudo era impressionante, como pode ver na imagem acima. É lindo este lugar, a construção da sede foi feita por meio do sistema de palafitas devido às enchentes sazonais, uma vez que, situa-se às margens do Rio Javaés, que circunda o lado leste da Ilha do Bananal. Neste dia o rio não estava cheio, mas fui em uma época de cheia, no qual podia-se ver os peixes passeando por debaixo das palafitas. Era algo transcendental para mim, era algo que logo de início, eu sabia que levaria para o resto de minha vida, tanto a sensação quanto aquelas imagens guardada profundamente em minha memória.

Não demorou muito, tivemos que descarregar tudo da “Combi” e colocar em barcos, porque não era aí nosso pouso, e sim rio acima, no encontro do Rio Javaés e Rio Araguaia, onde o vento fazia com que confundíssemos seu sentido. O lugar do pouso era um descampado bem acima do nível atual do rio, abaixo de uma balsa onde eram feitas as refeições.

A noite veio rápida, as barracas já estavam montadas quando foi hora de tomar banho. Era ao lado da balsa, os jacarés (tinga e jacaréaçu) ficavam de olho enquanto tomávamos banho, eram no máximo uns 10 (dez). Coisa pouca para quem ainda não tinha se acostumado, mas com o passar dos dias virou companhia.

As refeições eram as melhores, com comida farta e servida sempre muito cedo e em horários marcados pela professora que nos acompanhava. Na primeira noite não foi fácil. Muitos mosquitos (estes nos acompanharam todos os dias, todas as noites, de minuto a minuto, segundo a segundo). Eles estavam lá e para passar, só entrando dentro d’água e em locais escolhidos pelo barqueiro, se não fosse assim, as piranhas atacavam mesmo.

Nossas manhãs iniciavam-se às 5 da manhã, às 6 já estávamos todos alimentados e prontos para a labuta diária. Entravamos no barco e partíamos rumo aos bancos de areia. Os locais já estavam marcados com estacas – eram muitos, pois uma turma de alunos foi na época que as tartarugas botavam os ovos. A primeira cova que abri foi louvável, coloquei o balde ao meu lado e fui cavando. A areia fica fofa no local, pois foi empurrada pela tartaruga para cobrir o local. Cavei uns 20 centímetros, e estavam lá os primeiros olhinhos brilhantes que pude ver. As pequeninas tartarugas eram muito ágeis e quando percebi, elas começavam a fugir por entre as pernas e debaixo do braço. E dá-lhe correr atrás de tartarugas fujonas. Cada cava podia-se encontrar até umas 150 tartaruguinhas. Eram muitas. Era catalogado pela quantidade de vivas, mortas e ovos não eclodidos. Os dias passavam até rápidos quando estávamos trabalhando.

quelonios2

Um dia, chegamos a uma praia e percebi que havia pontos pretos próximos as estacas. Quando pude chegar mais perto, percebi que eram as carapaças (a casquinha que cobre a tartaruga). Isto ocorria por causa dos pássaros predadores de ovos e filhotes que ficavam na espreita. Foi meio triste ver aquela cena, pois eles ficavam ao redor mesmo, esperando que algum apontasse por ali. Uma hora culpei a nós mesmos, talvez se tivéssemos chegado um pouco mais cedo não encontraríamos aqui. O fato é que hoje eles me acompanham, trouxe as pequenas carapaças para minha casa, lembro-me que ficamos em dúvida se poderia ou não trazer do parque, mas como eram apenas os restos, não teve problema. O mesmo aconteceu quando atravessamos o rio, na ilha do bananal mesmo, e encontramos restos de uma sucuri inteira. Foi legal.

Ajudei também na identificação do sexo dos jacarés. Outro grupo que estava conosco  capturava, marcava, identificava, media, pesava e catalogava, além de sair a noite fazendo as contagens dos grupos que se formavam durante esse período nas margens. Para a identificação do sexo era fácil, eu enfiava o dedo cuidadosamente na cloaca (mais conhecido como ânus), quando se sentia uma protuberância, era macho, se não, evidentemente fêmea.

Os dias que passei por lá, uma semana, foram os melhores da minha vida. Consegui perceber a riqueza e calmaria que a mata provoca em nós. Sempre me lembro com grande satisfação. Pagamos uma quantia de R$ 80,00 para ajudar nas despesas de alimentação, quantia pouca pelo o que pude trazer de bagagem profissional e espiritual. Um trabalho voluntário que me trouxe a questão ambiental e de pesquisa na pele. Depois desta experiência pude comprovar que esta sim, era a profissão que escolhi para minha vida. O contato direto com a natureza.

Categoria(s): Dia V
Comentário(s):
  • vivoverde disse em 24 de janeiro de 2010:

    [...] ser para a vida inteira e que você fez a escolha certa? É disto que eu retrato na matéria – Minha experiência voluntária na eclosão dos ovos de tartaruga no Canguçu/TO – que escrevi para o Blog DiaV que tem como lema – Todo dia é dia de ser [...]

  • alfredo Zielke disse em 24 de janeiro de 2010:

    interessante, amei ler, me imaginei do seu lado em cada momento descrito por você, você tem um excelente português, e acima de tudo, uma forma de escrita nítida e envolvente, e tenho certeza que vc aprendeu muito com tudo isso :D

  • Claudia Sakai disse em 5 de abril de 2010:

    Pessoal só contribuindo, os créditos desta foto são do fotógrafo Igor Pessoa. O Canguçu é realmente um lugar belíssimo, tive a oportunidade de trabalhar com a equipe fundadora do mesmo…Vale a pena conhecer as belezas da Ilha do Bananal.

  • Deixe um comentário
    (não será publicado)
    * Campos obrigatórios Quero ser informado por e-mail quando mais pessoas comentarem aqui.